terça-feira, 7 de março de 2017

1984: Winston e Julia

"A união fora uma batalha, o clímax uma vitória. Era um golpe desferido do partido. Era um ato político." (ORWELL, 2009, p. 91)

Ele tinha 39 anos, ou achava que tinha. Ela era jovem, uns 25, talvez. E o ano era 1984. Julia tinha a pele branca, cabelo escuro e curto. Como todos, vestia um uniforme, amarrado ao seu macacão havia uma faixa vermelha que definia sua cintura e sua função no Partido do Grande Irmão. Winston tinha um rosto marcado pela idade, não costumava se barbear.
Assim como vieram ao mundo, por um acaso eles se conheceram, reconheceram e se apaixonaram, mesmo com o partido reprimindo qualquer tipo de sentimento. Ninguém poderia amar, apenas procriar.
Mas longe de todos os Ministérios, os dois se amavam. Naquele quarto velho, que servia de refúgio, no bairro esquecido da capital inglesa, não havia teletela. Não havia minutos de ódios. Não havia controle partidário. Havia planos, ternura física, ciúmes, sussurros, gritos e dois corpos deitados em uma cama esperando a água do chá começar a ferver.



ORWELL, George. 1984. Companhia das Letras, 2009.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por que ler os clássicos?

Aliás, o que realmente é um clássico? O mais velho, o mais vendido, o mais influente, o mais polêmico, o menos vendido ou o mais diferente?
Toda produção literária é carregada de valores, há sempre alguma mensagem. Há produções em que estas mensagens ecoam muito mais forte, impactando uma cultura, uma sociedade e uma época, e na leitura destes clássicos acabamos por conhecer e reconhecer estas mensagens, os valores que elas possuíram e possuem hoje.
Anacrônicas ou não, degustáveis ou não, os clássicos são clássicos. E no vídeo abaixo, produzido pela The Floating University e traduzido e legendado pelo canal Charles Darwin, Jeffrey Brenzel lista 5 razões para lermos os grandes clássicos (e não clássicos, sugiro).



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

As mulheres de Lima Barreto

Há diferentes representações femininas tematizando os contos e as crônicas de Lima Barreto. São mulheres cheias de estigmas, ora samaritanas, ora repletas de pecados capitais. Comuns e incomuns, se conversam, se conectam com seus paradoxos e paradigmas.

Com o exagero realista puramente brasileiro, Lima Barreto construiu suas personagens a partir de uma ótica pessimista, bem longe das alcovas romantizadas, foi de barzinhos a pensões, de subordinados aos soberbos de um subúrbio sem voz.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O piloto e escritor

Além de escritor, Antoine de Saint-Exupéry, autor do clássico O Pequeno Príncipe, também foi piloto de caças franceses. As aventuras do escritor durante a Segunda Guerra Mundial são contadas no livro Piloto de Guerra, publicado em 1942, nos EUA.

O livro, escrito enquanto Saint-Exupéry esteve exilado nos EUA, possui uma mistura de relato com devaneios, o livro aborda sua rotina como piloto durante os conflitos de 1940 entre a Alemanha e a França no período da Segunda Guerra Mundial. Os devaneios ficam por conta das reflexões do autor envolvendo a postura do homem no período de tensão bélica, a sociedade, o humanismo, o grande respeito pela nação francesa, sua paixão pela aviação e outros assuntos, que por vezes são interrompidos num diálogo entre seus companheiros de bordo.




Trechos do livro

"Ninguém ousa confessar que esta guerra não tem parecença com coisa alguma, que nada dela tem sentido, que nenhum esquema se lhe adapta, que se manejam, com toda a gravidade, fios que já não comunicam com as marionetes." (p. 14)
"E é desta maneira que eu, que parto em missão, não penso na luta do Ocidente contra o nazismo. Penso pormenores imediatos, penso em como é absurdo sobrevoar Arras a setecentos metros; na fragilidade das informações que desejam de nós. Penso ainda na lentidão com que me visto, nessa 'maquilagem' que se me afigura uma 'maquilagem' para carrasco. E depois penso nas minhas luvas: onde é que diabos vou encontrar as minhas luvas?" (p. 21) 
"Vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais perfeita é uma administração, mais ela elimina o arbítrio humano. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha o papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça já não podem causar estragos." (p. 47)


O site da AMAB (Associação Memória da Aéropostale no Brasil) tem uma página dedicada a histórias e curiosidades de Saint-Exupéry como artista, escritor e aviador. Link disponível aqui.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Heroínas na música

O que The La’s e The Velvet Underground têm em comum? Além de uma música com quase o mesmo nome, estas duas bandas produziram canções com um tema semelhante, a heroína. Antes de mais nada, para contextualizar, The La’s foi uma banda inglesa que surgiu lá pelos anos 80. Já The Velvet Underground foi uma banda americana que apareceu vinte anos antes, em 1960. The Velvet produziu um rock experimental, cheio de misturas e psicodelismo, lá nos primórdios do rock. Já The La’s produziu o que hoje a gente chama de rock alternativo.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A arte de blablablar

Somos artistas. Blablablamos por aqui e por ali. Eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos e vós ouvis tudo que eu tenho pra contar. Contamos dinheiro, contamos vantagem, contamos fofocas. Conversas paralelas onde ninguém diz nada até alguém dizer tudo. Nos expressamos de diversas maneiras, recontamos a polêmica da semana, devaneamos sobre a situação política, justificamos algum erro, apontamos o errado, defendemos o certo e assim prossegue o ofício diário do blablaísmo. Ou melhor: Blablaí

– MAS ISSO NÃO É ARTE! – interrompe alguém com um livro de arte em mãos.


terça-feira, 17 de maio de 2016

Antes de nós, antes de Adão

Não, este artigo não pretende abordar ideias criacionistas. Falarei sobre a obra fictícia Antes de Adão (Before Adam, originalmente), de Jack London, que apesar de levar o nome do primeiro homem do mundo, segundo a Bíblia, o leitor pode facilmente perceber a ligação com a crença de que simplesmente – e extraordinariamente - evoluímos. Apesar disso, London não faz nenhuma menção a Charles Darwin ou a sua teoria neste romance de 1907.